Caminho de Santiago – Caminho Primitivo

Amanda Mragno

Meu relato sobre como foi o Caminho de Santiago, dicas sobre como fazer o Caminho de Santiago e qual foi o meu roteiro no Caminho Primitivo.

No final de Setembro de 2023 eu senti que os sinais do universo estavam me direcionando para fazer o Caminho de Santiago. Primeiro eu duvidei porque nunca tive a vontade de fazer o Caminho e nem sabia direito como funcionava, mas fui dar uma pesquisada para descobrir como era e aí descobri que existiam algumas opções de Caminhos de Santiago e que um deles me chamou mais a atenção: o Caminho Primitivo, que era só pela Espanha e em 15 dias poderia concluir.

Ainda fiquei uns dias na dúvida se realmente deveria seguir esse chamado porque eu pensava: “será que vale a pena eu ir até a Espanha para fazer isso?! Será que eu vou aguentar ficar carregando a minha mochila por tantos dias nas costas? Será que eu vou aguentar dividir quarto com outras pessoas de novo se eu já defendo há um tempo que preciso de privacidade?! E, ainda, se for para eu ir, tem que ser até novembro porque depois começa o frio forte até março e se for só ano que vem eu não vou. Preciso decidir logo”.

Decidi arriscar e dia 07/11 deixei minha casa e parti rumo a esse desafio, ou seja, basicamente eu não me preparei porque a passagem que foi o sim definitivo, comprei 8 dias antes de partir, mesmo assim, eu peguei dicas na internet e com conhecidos trilheiros para comprar a mochila e preparar da melhor forma e nisso, eu acertei. Apesar do peso ter sido 50% maior do que recomendam para o meu peso, eu só levei o mínimo necessário e precisei de tudo que tinha lá dentro, exceto uma touca já que não fez tanto frio, e não senti falta de nada realmente. Se você quiser dicas para organizar a sua mochila, assista esse vídeo “Como fazer a mochila para o Caminho de Santiago” que gravei para te ajudar.

Quando cheguei em Oviedo, a cidade na qual comecei o Caminho, eu nem sabia direito de onde que começava o caminho, por onde seguir e muito menos qual seria o meu roteiro porque eu tinha pego dois ou três roteiros na internet, mas não entendia direito porque falavam em diferentes cidades e fiquei confusa: “será que eram direções diferentes ou só paravam em outros lugares”? Então, fui no guichê de informações turísticas e o rapaz me explicou que eu deveria começar pela Igreja Matriz e seguir as conchas – além disso, me falou da direção das conchas que eu nem sabia que apontavam uma direção e se fosse para seguir na minha opinião, teria ido na direção contrária -, e também, até qual cidade que eu deveria caminhar no primeiro dia. Além disso, ali eu peguei a credencial do peregrino, que é onde a gente precisa colocar os carimbos de alguns locais que passamos para “provar” que fizemos o caminho.

Aproveitei esse dia em Oviedo para descansar, organizar a mochila, comprar um chip local – achei essencial para quem fizer o Caminho porque você pode precisar entrar em contato com um albergue ou restaurante e também para aproveitar melhor os aplicativos que ajudam no Caminho -, e enviar a minha mala pelo Correio porque eu tinha uma mala de mão com o meu computador dentro, inclusive, e não iria voltar para Oviedo. Então, descobri o serviço do peregrino dos Correios que você pode enviar para Santiago da Compostela e retirar uns dias depois quando você finalizar o Caminho. Fiquei com receio pela bagunça que vi no lugar, mas deu tudo certo e super recomendo para quem for levar mala também. O valor foi bem em conta, quase o valor diário de um locker que tinha visto no aeroporto de Madri.  

No dia 11/11/2023 eu iniciei a minha jornada pelo Caminho de Santiago e não fazia ideia do que me esperava, mas eu pensava que iria encontrar várias pessoas pelo Caminho, e no primeiro dia não encontrei ninguém. No primeiro dia já vi que tinha uma grande diversidade no trajeto, já que caminhei pela calçada na cidade, por trilhas no meio do mato e também na beira da estrada. Só parei em um restaurante após 5h para pegar o carimbo e usar o banheiro. Depois, parei no mercado em Grado, onde seria uma possível parada para dormir, mas eu segui para dormir no albergue municipal de Villapañada. 

Neste dia foram quase 30 km e fiz mais ou menos 8h de caminhada. Ao chegar no albergue, agradeci por ter parado no mercado porque ali na região não tinha nenhum local por perto para comprar qualquer coisa – tudo bem que só comprei um sanduíche, mas pelo menos eu tinha tomado um café da manhã reforçado no hotel e pela noite me virei com bolacha e chocolate (claro que não é o indicado, mas eu não sinto tanta fome quando estou viajando) – e fiquei preocupada sem ter o que fazer por tantas horas (cheguei por volta das 15h), por não ter wifi e ainda dormir sozinha numa casa onde não parecia ter ninguém por perto. Mas, pelo menos uma hora depois chegou um homem e fiquei mais tranquila em ter alguma companhia. 

Neste primeiro albergue que eu entendi melhor o que é o Caminho Primitivo. Lá tinham algumas apostilas para estudar e o senhor que me recebeu também tirou algumas dúvidas. Então, descobri qual seria a cidade que deveria parar no dia seguinte e tive uma noção melhor de onde parar nos outros dias também. Além disso, descobri que esse é considerado o caminho mais difícil porque tem muitos trechos por trilhas em meio a natureza e com bastante desnível, mas não me preocupei com isso, foquei em viver um dia de cada vez para não me desesperar com os desafios que teria pela frente. 

Como eu fui na baixa temporada, quase todos os albergues estavam fechados, só estavam abertos os albergues municipais, então, as paradas precisavam ser bem estratégicas. Não tinha muito como sair caminhando e decidir parar quando cansar porque se não poderia acabar dormindo na rua. Nos albergues municipais você paga uma taxa (estavam entre 6 e 10 euros) onde você tem direito a uma cama num beliche e pode usar o banheiro. Alguns têm wifi, utensílios de cozinha, fogão, microondas e outros não tem nada disso. Você recebe uma roupa de cama descartável e precisa levar o seu saco de dormir. Na maioria deles tem máquina de lavar e secar roupas que você pode usar pagando uma taxa extra (variava de 4 a 8 euros para lavar e secar até onde me lembro), e/ou também tem tanque onde você pode lavar as coisas a mão, mas precisa colaboração do tempo para secar tudo antes de você sair no dia seguinte.

No segundo dia eu segui junto com o meu colega de albergue até Salas e depois segui sozinha até La Espina, era um trajeto com bastante subidas e descidas, e aí eu tive mais certeza de que as subidas são cansativas, mas as descidas são mais complicadas por causa da mochila e impacto no joelho. Neste dia eu tive que pisar na lama e fiquei com o pé todo molhado por um tempo – acho que ainda não comentei, mas fiz todo o Caminho com tênis de academia porque eu não tinha bota impermeável e não dava tempo para comprar e testar antes de ir, mas eu super recomendo esse investimento porque eu fiquei uns 5 dias pelo menos caminhando com os pés molhados.

Neste dia eu dormi num albergue privado (paguei 13 euros) e fiquei sozinha porque como eu já comentei, não tinha quase ninguém no caminho. Fiquei feliz porque eu teria um quarto e banheiros só meus e poderia aproveitar a solitude que eu amo. Porém, não comprei comida e tive que me virar com os lanches que eu tinha e mais um bolinho que a mulher do albergue me deu já que era domingo e estava tudo fechado por perto. 

No terceiro dia eu decidi que ia caminhar menos, só até Tineo, que não davam 12 km, porque eu estava com dor na minha perna e além disso, se eu seguisse adiante, correria o risco de fazer sozinha o dia que dizem ser o mais difícil, o caminho por Hospitales, e então, eu preferi garantir porque desta forma, encontraria o colega que conheci no primeiro dia e me sentiria um pouco mais segura. Essa foi uma decisão assertiva porque além disso, neste pequeno percurso do terceiro dia, encontrei mais 2 pessoas, fiquei feliz em conhecer mais gente e eles também ficaram em Tineo.

Em Tineo chegamos pelo meio-dia e ali pelo menos deu para passear pela vila, encontrar uma pizza e ao final do dia acabamos ficando em sete pessoas dormindo neste albergue, foi uma surpresa para mim que estava basicamente sozinha até então.

No quarto dia acabei fazendo quase todo o trajeto sozinha já que cada um tem um ritmo e aí, fui até Bourres, onde dormiram todos que iam fazer o caminho por Hospitales – existe uma outra opção de caminho que são uns 3km a mais, porém, menos arriscado. O albergue dali foi o que considerei o pior. Além de não ter cozinha, nem máquinas, ou tanque, a higiene deixou muito a desejar e ainda cheguei cedo e tive que aguentar ali porque não tinha outro lugar aberto para dormir e fazer o caminho que escolhi no dia seguinte.

O quinto dia foi um caso à parte porque diziam ser o dia mais difícil e se o tempo não colaborasse, estaríamos ferrados. Por sorte, o tempo ajudou, mas foi um dia tenso já que eram 24km sem nenhum banheiro, restaurante, mercado ou qualquer coisa, e você basicamente caminha no meio do pasto. Tinham partes com subidas e descidas de pedras e muitos desafios. Eu comecei acompanhada, mas depois me separei do pessoal, aí, eu e mais 3 pessoas acabamos nos perdendo e aí se foram mais de 30 min perdidos. Depois, me adiantei e segui sozinha. Além disso, eu cai 3 vezes neste dia – o único dia que cai, na verdade – e uma delas foi na lama e eu sujei minha mochila, uns amendoins e um dos casacos, isso foi quase no final e me deixou um pouco estressada. O que amenizou foi que decidi caminhar 1 hora a mais e ficar num albergue privado, onde acabei ficando sozinha, tinha secador, tinha jornal e pude limpar com calma todas as minhas coisas, além de aproveitar para colocar para fora toda a frustração. 

E depois disso, acredito que o caminho em si começou a ficar menos complicado. É claro que tinham dias que parecia que a caminhada não acabava nunca ou que tinham alguns desafios, mas acredito que os primeiros foram os mais intensos e onde senti mais o peso da mochila. A partir dali já tinham alguns contatos e ter alguém para conversar era muito bom, principalmente porque todos tinham espanhol como a língua mãe e eu pude praticar o meu. Alguns dias eu caminhei sozinha, e outros, com alguma companhia.

Cheguei a Santiago da Compostela no dia 22/11/2023, finalizando mais de 310km do Caminho Primitivo, ou seja, fiz o trajeto em 12 dias. No meu cronograma seriam em 13 dias, mas acabou que o que para ser o penúltimo dia, senti de terminar e assim, fiz uns 39km neste dia.

O último dia foi onde senti algo mágico porque eu iria fazer 33km e deixar mais 5km para finalizar no dia seguinte. Porém, quando faltavam 5km para esses 33km, comecei a sentir que deveria ir até o final naquele dia. E como eu adoro um desafio, estava querendo seguir essa nova meta, ainda mais que terminaria um dia antes e no dia 22/11, que gosto mais do que dia 23 (numerologicamente falando), só que, eu não estava em condições físicas de terminar e eu sei os limites do meu corpo, não iria me sobrecarregar já que esse era o único dia que eu realmente estava me sentindo cansada, sem tanta energia. O dia já não tinha começado bem porque estava com dor no ombro esquerdo e passei trabalho com a minha bexiga já que não encontrava banheiro, então, quando voltei a caminhar nestes que seriam os últimos 5km até o albergue, fui sem me pressionar, mas aí, logo começaram a ter muitas descidas e eu comecei a correr devagar em algumas delas porque sentia menos os meus joelhos e também a mochila. Foi aí que o jogo virou, todos os meus desconfortos sumiram, nem mais frio ou calor eu sentia e decidi fazer os 10km finais mesmo ao invés de só 5km. Então, a metade acabei correndo e o resto, caminhando mesmo. Foi como se tivesse baixado uma luz divina em mim, eu nem sei explicar direito como cheguei porque nas condições que eu estava antes, sabia que não seria capaz. Mas cheguei, sem avisar ninguém da mudança no trajeto porque a bateria do meu celular estava acabando, só que eu sabia que era o que precisava ter feito.

Lá na Catedral de Santiago da Compostela eu também senti uma conexão muito forte e demorou uns minutos para eu realmente voltar para a realidade. E quando voltei, as dores chegaram todas juntas. Mal conseguia andar com o pé direito porque tinha uma bolha no calcanhar que estava inflamada (já tinha começado a me incomodar uns dias antes) e fui mancando para pegar o ônibus até o albergue. Só consegui parar em um restaurante que estava no caminho porque eu realmente precisava comer algo salgado e para a minha sorte, tinha frango, que era justo o que eu estava com vontade. Durante o Caminho, eu confesso que fiz poucas “refeições completas”, comia mais lanches – pizza, hamburguer, empadão e tal (isso quando tinha). 

Essa foi a minha experiência no Caminho de Santiago, eu compartilhei um pouco mais de informações e dicas nos meus vídeos do Youtube, recomendo que você assista caso queira fazer algum dos Caminhos de Santiago. E abaixo, vou deixar o meu roteiro com a distância aproximada que fiz em cada dia (digo aproximada porque peguei em alguns aplicativos e se somar tudo, é um pouco diferente dos 315km que diz no certificado).

E a dica final é: se você sente o chamado ou a vontade de fazer o Caminho de Santiago, simplesmente pare de enrolar e vá logo. Não fique criando empecilhos e procrastinando. Escolha um caminho que faça mais sentido para você, se prepare e siga em frente. Se você pensar muito, você não vai se achar capaz, mas VOCÊ É MUITO MAIS FORTE DO QUE VOCÊ IMAGINA, tenha certeza disso.

Além disso, saiba que cada um vai ter uma experiência única no Caminho e não compare a sua história com os demais. Se eu fosse comparar a minha história com a de outras pessoas que conheci, parece que a minha não foi nada demais já que a maioria das pessoas dizem ter sido um grande divisor de águas em suas vidas, e no meu caso, não senti isso, mas eu entendo que cada um vive aquilo que a sua alma precisa viver e estou em paz com o meu processo e com a escolha de ter feito o Caminho. Ao menos eu tive a coragem de seguir os meus instintos e viver o processo ao invés de ficar só pensando em como seria se eu tivesse feito. Acredito que o arrependimento por arriscar fazer algo do estilo provavelmente sumiria logo, já a frustração por não ter experimentado pode durar a vida toda.

Meu roteiro por dias

1 – Oviedo – Villapañeda: 29,7 km

2 – Villapañeda – La Espina: 27,5 km 

3 – La Espina – Tineo: 11,6 km

4 – Tineo – Bourres: 15,7 km 

5 – Bourres – (Hospitales) – La Mesa: 29,1 km

6 – La Mesa – Grandas de Salime: 15,9 km 

7 – Grandas – A Fonsagrada: 25,7 km

8 – A Fonsagrada – Castroverde: 33 km

9 – Castroverde – Lugo: 22 km

10 – Lugo – As Seixas: 32,6 km

11 – As Seixas – Arzúa – 29,1 km

12 – Arzúa – Santiago de Compostela – 38,7 km

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