Se você deseja visitar Choquequirao, aproveite as dicas que eu trouxe aqui e o relato da minha experiência visitando este local sagrado.

Há 2 ou 3 anos, ouvi falar de Choquequirao pela primeira vez, uma cidade Inca pouco visitada, mas não dei muita atenção a isso. No ano passado conheci um peruano que falou do lugar para mim, que eu iria gostar, mas quando eu vi que seriam uns 3 ou 4 dias de caminhada, não coloquei muita esperança de visitar (isso foi antes de eu fazer o Caminho de Santiago), mas deixei salvo no meu celular.
Em abril de 2024 eu tinha uma viagem marcada para o Peru onde eu já tinha um roteiro pré-definido e não encaixaria a trilha, porém, surgiu um post de Choquequirao no meu feed do Instagram e eu senti que deveria ir para lá, então, busquei agências que fizessem o trajeto já que sozinha eu fiquei com receio de não dar conta (nunca acampei e já tinha lido que não era uma trilha muito fácil). Encontrei poucas, sendo algumas só com pacotes privados que não se encaixavam no meu bolso porque eu teria que bancar tudo sozinha e outras faziam grupos com datas fechadas e, para a minha sorte, uma delas tinha um grupo justo no período que eu estaria no Peru, porém, o pacote era de 5 dias e eu achava demais, queria dedicar 4 dias para esse passeio, então, enrolei bastante, mas eu sabia que deveria ir, então, me adaptei e quando eu estava no Peru já que fechei o pacote.
O primeiro dia era basicamente só o deslocamento de Cusco até São Pedro de Cachora, que é a cidade próxima onde quase todos que fazem Choquequirao pernoitam. Então, ficamos num hotel lá, conhecemos o guia que explicou um pouco como seria a jornada e no dia seguinte que começamos a trilha em si.
No segundo dia saímos do hotel logo após às 7h e um carro nos levou até Capulyoc, onde começa a trilha. No primeiro dia a gente seguiu até Marampata, onde pernoitamos. Foram quase 10km descendo um morro e depois, uns 6km subindo outro morro. É uma trilha considerada difícil porque tem muitas pedras soltas e precisa de muito cuidado para não se machucar. Uma das colegas do grupo já se machucou na descida e teve que recorrer a uma mula para subir.

Neste dia nós paramos em Chiquisca para almoçar e depois, outra pausa em Santa Rosa Baja para fazer um lanche antes dos últimos 4km do dia e aí começou a chover bastante e fomos com chuva mesmo – eu prefiro não parar muito, se não perco o ritmo, e ali, ficamos alguns minutos e perdi o ritmo sim. Estávamos indo super bem, segundo o guia, bem mais rápido que a média, e depois parece que também chegamos bem antes do previsto, mas confesso que esses quilômetros finais foram um desafio para mim. A chuva me atrapalhou e principalmente, o calor, ainda mais que a minha água acabou nesse trecho e só em Marampata que poderia comprar outra. Chegamos às 16h30 em Marampata.
Após matar a sede, limpei minha bota, tomei banho num chuveiro bem simples que tem no local, mas que ao menos tinha água quente e foi ótimo depois de tanto suar. Jantamos cedo, depois paguei para usar 30 min de wifi e avisar a família que estava bem e às 19h30 já não tinha mais nada para fazer. Estava escuro, quase não tinha luz, não dava para ficar no celular (para não gastar bateria já que poderia ficar sem antes de voltar para a cidade), então, fiquei enrolando e conversando por uma hora com a minha colega de quarto e pelas 20h30 fomos dormir. A gente dormiu em uma cabana de madeira que tinha cama (não precisei acampar, ufa!) e uma vista linda. O problema era que o banheiro era longe, até tinha um vaso sanitário e uma pia ali perto, mas era tudo ao ar livre hahaha.
No terceiro dia (segundo na trilha), acordei pelas 5h da manhã e fiquei esperando para o café da manhã às 6h30. Neste dia nós fomos direto para Choquequirao, eram só 4km, mas fomos mais devagar por causa da nossa colega que tinha machucado o pé no dia anterior e nesse trajeto a mula não ia (nós éramos só em 4, tinha eu, ela e mais um homem, além do guia). Como caminhei mais devagar, parecia que não chegava nunca… mas, chegamos!

Desbravamos todos os setores abertos de Choquequirao (7 ou 8, se não me engano) durante umas 6h, o guia nos explicou tudo, mas eu confesso que não absorvo quase nada de história. O que me lembro é que tinham lugares que eram residências, de trabalho, de sacrifícios, de cerimônias e políticos. Para mim, o mais importante é ver e sentir o lugar e isso foi ótimo, o lugar é lindo e com uma energia mais pura, já que ainda é pouco explorado.
O setor que eu mais gostei foi o das Lhamas, onde são vários andares de pedras e grama e onde tem 24 lhamas desenhadas com as pedras nas paredes. Ali tinha um senhor tocando flauta também e foi uma experiência que me tocou mais. Só é necessário um certo esforço para explorar o local porque tem muitos degraus para subir e um outro caminho não tão leve também.

Além disso, após o almoço tivemos a sorte de ver 5 aves do tipo condor passando por lá. E o condor é um animal sagrado para os Incas, já que eles acreditavam que o condor seria a conexão entre o mundo espiritual e o mundo terreno. Como eu já sabia disso, achei bem simbólico ter visto estas aves que não são sempre que as pessoas têm a chance de observar em qualquer lugar.
Confesso que eu esperava ter sentindo um pouco mais da energia do local e ter alguns insights neste lugar sagrado porque eu fui devido a um chamado da minha alma, mas no dia eu não senti quase nada para ser sincera. Depois eu percebi que tinha bloqueado um pouco o meu sentir devido a correria que foi a minha viagem para o Peru e as expectativas que essa pessoa ansiosa insiste em criar. Porém, enquanto escrevo este texto, uns dias após a viagem, estou sentindo uma conexão com o local e parece que algumas informações estão chegando. Acho que eu realmente tenho um delay para receber as informações, geralmente chegam quando já estou de volta à minha rotina.
Uma informação muito importante sobre a trilha é que lá tem MUITOS mosquitos, então, você precisa usar repelente o tempo todo e no corpo inteiro. Isso é algo que me incomodava porque eu não gosto de usar creme no corpo assim e até após o banho ou logo que acordava, inclusive no rosto, se não era atacada pelos mosquitos.

Na volta até Marampata eu fui basicamente sozinha porque o guia ficou para trás com a nossa colega e como eu não me sinto bem caminhando devagar, fui na frente, no meu ritmo. O colega do grupo foi uma parte comigo, mas depois ele ficou em algum lugar enquanto eu fui direto para a hospedagem. Na verdade, voltei bem rápido porque estava preocupada em como eu iria aguentar mais duas noites no meio dos mosquitos e ainda, com muito tempo sem fazer nada e sem poder mexer no celular para não ficar sem bateria – o que no caso, nem poderia ler um livro online – já que o plano era dormir em Marampata, fazer mais ou menos a metade da volta no dia seguinte e finalizar os 8km no quarto dia.
Já desde o início eu não entendia a razão de fazer o retorno em 2 dias se na ida a gente fez em um dia só. Eu sou uma pessoa que costuma ter bastante energia e se eu não usá-la, ficar parada, não me sinto bem e isso era o que iria acontecer. Sofri com essa questão até o dia seguinte pela manhã quando eu desabafei com uma das donas da pousada em que estávamos e não sei se foi por isso ou por outras razões também (acredito que sim) que o guia sugeriu da gente voltar até o final naquele dia mesmo e assim, finalizar a trilha em 3 dias e não em 4 como o planejado. Aí eu fiquei feliz de novo porque era o meu plano inicial antes de fechar um pacote.
No segundo dia, quando cheguei de Choquequirao, já fui logo para o banho para não dormir de cabelo molhado, limpei minha bota e fui escrever antes de escurecer. Tentei interagir com uma ou outra pessoa, mas eu não estava no clima. No jantar eu também fiquei mais calada, acho que não consegui esconder a minha tristeza, mas só desabafei com a minha colega de quarto mais tarde. Usei os 30 min de wifi de novo para atualizar a família e o Instagram já que isso me distraia um pouco e depois, pelas 21h fui dormir – só ali mesmo que eu conseguia dormir antes das 22h porque não tinha nada para fazer e eu acordava cedo mesmo.
No terceiro dia, como comentei, não aguentei o choro e desabafei com a senhora do local quando fui pagar a minha conta e comprar uma banana. No fim, ela nem cobrou a banana porque estava um pouco passada, mas eu tinha dito que precisava comer com as minhas sementes e ela não queria me ver chorar mais hahaha. Depois disso que o guia sugeriu da gente ir até o final e todos toparam porque o homem do grupo era super rápido e a mulher que estava com o pé machucado, na parte da descida faria tudo naquele dia de qualquer jeito e a subida, faria com as mulas, então, não mudaria muito.
Acho que ainda não comentei, mas a gente não precisou carregar as nossas coisas, só uma mochila pequena com água, lanches, repelente e tal, já que no pacote que fechamos estavam inclusas as mulas para levarem as mochilas maiores e até as mulas para cada um de nós caso precisássemos. Eu só aproveitei as mulas para as mochilas, mesmo não gostando muito da ideia, não conseguiria imaginar como seria fazer essa trilha com uns 6kg nas costas, então, agradeci elas pelo trabalho e enviei muito amor para elas.

Antes de começar o caminho de volta eu estava sentindo que o meu corpo não era aquele com toda energia que tinha no primeiro dia – acho que por isso que eles dividem a volta em duas etapas -, mas como eu sabia que a gente iria até o final, me animei e fomos num ritmo muito bom. Chegamos em Chiquisca, onde teoricamente a gente iria dormir às 10h40 (foram 8k quase tudo de descida em 3h). E eu estava morrendo de calor porque o sol tinha acabado de sair, lavei meu rosto e já fui passar repelente de novo, e nisso já fui picada por 3 mosquitos e enquanto esperava o almoço, mesmo com repelente e tentando fugir, levei mais umas 5 picadas. Fiquei só pensando como seria se eu tivesse que dormir ali porque teria quase o dia todo parada e a mercê dos mosquitos… deusolivre.
Nosso último almoço da trilha foi arroz com bife, batata frita, suco de maracujá e depois ainda o guia fez um caldo de cana. Voltamos a subir pelas 12h40, naquele horário maravilhoso do sol (contém ironia), sofri com o calor, tentava parar um minuto para respirar em cada sombra, mas em uma parte do trajeto não tinha sombra, nem nuvens e aí foi tenso. Mesmo assim, consegui subir os quase 8km em pouco mais de 3h (incluindo uma pausa de uns 15 min) e assim, concluímos a trilha por volta das 16h.
Ter finalizado a parte da trilha em 3 dias me deixou muito feliz, estava com saudades de tomar um banho mais decente e não precisar me besuntar de repelente o tempo todo. Além disso, pude carregar e mexer no meu celular novamente (eu tinha levado uma bateria extra, mas ela só carregou 50% do meu celular).
Informações sobre a trilha de Choquequirao
Esse com certeza não é um trekking fácil. Eu não sou muito experiente na área, mas pelo que dizem, é considerado difícil, então, eu não acredito que seja para qualquer um. Quase todo o trajeto tem bastante pedras, principalmente soltas, então, precisa de muito cuidado para não errar a pisada. A comparação que eu posso fazer é com o Caminho de Santiago que fiz – Caminho Primitivo, que dizem ser um dos mais difíceis -, e realmente, Choquequirao era bem mais desafiador na questão do solo e desníveis (o Caminho de Santiago não é simples porque são muito mais dias e carreguei a mochila pesada). E pelas minhas anotações, num dos dias que eu considerei o mais difícil no Caminho de Santiago, eu fiz 29km em 8h e aqui eu fiz uns 16km em umas 6h (se não considerar a parada de 2h para o almoço porque no Caminho eu parei uma vez por 15 min só), então, considero que Choquequirao foi bem mais puxado, mesmo com muito menos peso nas costas.
Para resumir e trazer um pouco mais de informações, na trilha para chegar em Choquequirao você basicamente vai descer 1500 m e depois subir mais 1500 m. A mesma coisa na volta. E nas partes mais altas você está numa altitude de mais de 3000 m acima do mar, então, para quem não está acostumado com altitude, ainda pode sofrer com isso (eu não senti nada, ainda bem!).
Para quem quiser ir sozinho, é possível fazer, mas eu recomendo pagar uma mula para levar a sua mochila ou algum homem local que faz esse serviço. E não deixe de levar bastões de trekking porque eles fazem toda a diferença. O roteiro que você pode fazer é o mesmo que o meu (se estiver em forma), vou colocar abaixo e também uma sugestão extra. Também é possível fazer só a ida e seguir adiante até Machu Picchu, porém, parece que tem um rio para atravessar e vai depender das condições climáticas estarem favoráveis. Conheci um brasileiro que ia fazer isso com dois amigos peruanos, mas desistiram porque tinha chovido e não iriam conseguir atravessar o rio. Teve outro grupo que seguiu adiante no dia seguinte, só que era um grupo de agência onde estavam bem preparados e que tinham as mulas para ajudar na travessia.
Existe um projeto do governo peruano para fazer um teleférico que irá levar até Choquequirao e assim, não será necessário fazer a trilha, mas eu espero que não vá para frente porque prefiro que a essência do local seja mantida já que assim parece que são uns 10 visitantes por dia enquanto Machu Picchu são mais de 5 mil por dia. É claro que não acho que receberia a mesma quantidade de visitantes, mas mesmo assim, prefiro lugares que se mantém mais preservados ao invés de transformá-los em locais altamente turísticos.
Vou deixar aqui como foi o meu roteiro e, caso você tenha interesse em conhecer o local, eu recomendaria contratar uma agência também, mas, se você já tem experiência e prefere fazer sozinho, aproveite as dicas.

Roteiro de Choquequirao
Dia 1: Cusco – San Pedro de Cachora
Às10h, o táxi nos buscou em Cusco e foram mais de 3h de viagem numa rodovia com MUITAS curvas, eu diria que 2h do percurso foram basicamente só de curvas, então, se você costuma passar mal na viagem, tome um remédio antes e também não coma nada pesado. Nós almoçamos ao chegar em San Pedro de Cachora depois tivemos tempo livre no hotel porque não tem nada para fazer na cidade. E mais tarde, jantamos e fomos dormir cedo (sugeri para a agência buscar em Cusco pelo menos ao meio dia).
Dia 2: San Pedro de Cachora – Capulyoc – Marampata
Tomamos café da manhã 6h00 e às 6h45 um carro nos buscou e nos levou até Capulyoc (são uns 11km se não me engano). Às 7h35 iniciamos a trilha. Chegamos em Chiquisca às 10h15, bem antes do previsto porque o nosso ritmo estava bom. Almoçamos logo após às 11h e ao meio dia seguimos adiante. (Foi em Chiquisca que encontrei o brasileiro e ele me disse que ouviu dizer que há muitos anos não viam um brasileiro na região, então, como eu já imaginava, é uma trilha ainda pouco explorada por nós brasileiros). A parte da descida foi bem rápida e depois, a subida fizemos em duas etapas porque paramos para o lanche em Santa Rosa Baja. Aqui é um lugar que você pode parar para se hospedar ou acampar se achar que é demais ir até Marampata. Nós seguimos adiante até Marampata e então, foram 16km neste dia, sendo basicamente a metade de descida e a outra de subida.
Dia 3: Marampata – Choquequirao – Marampata
Após o café, saímos às 7h15 em direção a Choquequirao. Aqui a trilha é mais tranquila. Dentro do sítio arqueológico andamos uns 5 ou 6km e foi bem tranquilo. O setor das Lhamas é o mais intenso para descer e subir. Comemos um almoço frio por lá mesmo (levaram para nós porque não tem onde comprar lá) e às 15h começamos o caminho de volta até Marampata. Eu acabei voltando rápido, em menos de 1h30. Sugestão de outra opção: se você for sozinho, pode ser que não ficará tanto tempo lá nas ruínas e pode preferir seguir até Santa Rosa Baja para dormir lá, afinal, é só descida até ali, o que é mais tranquilo. Ou quem sabe, até Chiquisca, se tiver força.
Dia 4: Marampata – Capulyoc – San Pedro de Cachora
Saímos de Marampata às 7h35 e às 10h40 chegamos em Chiquisca, que foi onde almoçamos e onde você pode dormir também se estiver muito cansado (era o plano original do nosso grupo). Seguimos até o final da trilha em Capulyoc e de lá o carro nos buscou e deixou em San Pedro de Cachora. Jantamos e dormimos por lá já que não poderíamos alterar tanto o roteiro e já voltar para Cusco (mas confesso que acho melhor fazer esse trajeto durante o dia mesmo porque os motoristas peruanos costumam ser bem doidinhos).
Dia 5: San Pedro de Cachora – Cusco
Saímos pelas 9h para retornar a Cusco e ao meio-dia chegamos na capital.
PS.: Caso alguém queira o contato da agência que eu fechei o pacote, me mande mensagem no Instagram ou no Whatsapp que eu compartilho com você.